quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo

Faltando 3 dias pra passagem de ano eu comecei a refletir sobre as coisas que fiz esse ano. Quando uma pessoa normal faz isso, não tem muito do que se arrepender, mas um stalker tem lembranças que prefere esquecer... Confraternizamos, brindamos, lembramos os que se foram (mas nunca contamos o que houve, pois ver o rosto de seu amigo se liquefazer após um tiro de fuzil não faz uma narrativa pra se contar aos amigos entre um gole e outro de vodka) e todas as coisas típicas de passagem de ano.
Mas voltando a mim, esse ano, especialmente, me lembrei dos anos que passei com minha família, na minha infância, adolescência e até há poucos anos atrás, eu fui feliz... Mas depois que vim pra cá, eles me esqueceram e eu os esqueci (a Zona come nossas lembranças)... Estava no bar, sozinho em uma mesa, bebendo sozinho, brindei a eles, quando meu PDA deu um alerta de mensagem, pensei que fosse mais uma missão, outro covil de criatura pra limpar, outro stalker pra resgatar, outra amostra pra conseguir... Quando peguei o PDA, vi o seguinte "1 nova mensagem de Pai", um tremor passou pelo meu corpo, pensei o pior... Hesitei por um instante antes de abrir a mensagem, estava com mais medo do que quando fui matar meu primeiro sanguessuga. Abri a mensagem, "Feliz ano novo meu filho, papai te ama!" era o texto... Uma lágrima correu dos meus olhos, nunca mais tinha chorado depois que vim pra cá... Saí do bar e liguei pra ele! Chorei como uma criança enquanto falava com ele. Sim, eu ainda tenho sentimentos, a Zona ainda não me devorou... Feliz Ano Novo!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Achados e Perdas

Costumam dizer que nós somos pessoas insensíveis à toda a destruição que se faz presente na Zona, talvez seja verdade, mas nunca gostei de generalizações. Creio que varia de acordo com o indivíduo e de que forma veio parar aqui, mas isso é história pra outros registros. Bem, não sei se o que vou escrever é um sinal de sensibilidade ou qualquer outra coisa, mas mesmo assim achei que valia a pena registrar. Outro dia eu estava voltando de uma exploração, procurando por dinheiro, como todo stalker, (é, a Zona está engolindo mais um...) e andei por uma vila abandonada que nunca havia visitado antes.
Abandono, sombras, tristeza... Vi a concretização dessas coisas naquela vila...
Logo que entrei senti um tremor passando por mim, algo de medo com tristeza, fiquei uns segundos paralizado, o suficiente pra ver a vida naquele vilarejo antes do acidente, senti um impulso de explorar aquelas casas, muitas já destruídas. Vi uma casa simples, de madeira, que estava inteira e fui lá, eu tinha de ir, senti um forte impulso me atraindo em direção àquela casa. Abri a porta fui caminhando pela sala, enquanto o chão rangia sob meus pés. Fui andando pelos cômodos e quase tudo estava revirado e abandonado, como tudo na Zona. Continuei andando e uma porta entreaberta me chamou atenção,era a única colorida da casa, naquele exato instante me senti um bruto com meu fuzil destravado na mão, mas continuei assim, aqui na Zona você não pode se descuidar, não se sabe o que jaz atrás de cada porta, mas voltando, fui em direção à porta, coração pulsando mais a cada passo em direção à ela, pensei que ia morrer ali mesmo quando minha mão tocou a maçaneta, pois nunca, meu coração esteve tão acelerado. Abri a porta devagar, ela rangeu como toda porta velha, mas na hora o rangido me fez sentir um arrepio. Entrei ainda estava dia lá fora e os raios de Sol entravam pela janela que tinha os vidros quebrados. Perturbadora, assim eu descrevo a visão daquele quartinho de bebê, praticamente tudo intacto com poucos sinais de envelhecimento e NENHUM sinal de vandalismo, pelo contrário, alguns objetos parecem ter sidos postos novamente em seu lugar, mas haviam sinais da presença de outros stalkers, algumas lembranças de todas as facções inclusive de militares, nenhuma delas no chão ou com marcas de destruição. Esse local virou uma espécie de santuário da paz, das lembranças boas, e também de tristeza para nós. Me aproximei do berço. Peguei uma bonequinha deitada dentro dele, que estava disposta de forma a lembrar uma crinça dormindo, coberta com um lençol e com a cabeça no travesseiro, e pensei: "-Meu Deus, uma infância perdida. Destruída pela arrogância de homens e mulheres que queriam dominar um poder muito além de sua compreensão... O que é mais terrível e desumano do que retirar o direito de uma criança de viver sua infância? Perdas, quantas mais houveram? Quantas mais hão de vir?". Recoloquei a boneca no berço, deixei minha lembrança, uma pequena estampa de minha roupa, perto das demais e parti. Enquanto caminnhava pra fora daquela vila pensando que mesmo a Zona preserva lugares de paz, mesmo que tristes... E que no fundo, a maioria dos stalkers são iguais... igualmente humanos...